Tópicos do Artigo
- Como os Corantes e Colorações Funcionam?
- Coloração Panótico Rápido
- May-Grunwald-Giemsa: O Padrão-Ouro Morfológico
- Wright e suas Variações: A Base Clássica
- Integrando a Coloração com a Análise Morfológica
Se você está mergulhando no universo fascinante do Laboratório de Análises Clínicas, sabe que a Hematologia é um daqueles pilares que exigem tanto conhecimento teórico quanto um olho clínico apurado. E o que é que dá cor e vida (literalmente) ao nosso diagnóstico? As colorações! Mais do que simples protocolos, elas são a arte e a ciência de revelar os segredos escondidos no sangue. Vamos além do básico e mergulhar nas nuances que fazem a diferença entre um laudo comum e um diagnóstico de excelência. Este artigo é seu manual de sobrevivência na hematologia no laboratório.
Como os Corantes e Colorações Funcionam?
As colorações hematológicas não são tinta em parede. Elas são reações químicas específicas baseadas na carga e na composição das estruturas celulares. Os corantes são geralmente sais com um íon carregado positivamente (corante básico, como o azul de metileno) que se liga a componentes ácidos (como o DNA e o RNA, carregados negativamente), e um íon carregado negativamente (corante ácido, como a eosina) que se liga a componentes básicos (como a hemoglobina e proteínas citoplasmáticas).
É essa dança de cargas que define o padrão de cor: núcleos em tons de púrpura/azul e citoplasma em tons de rosa/laranja. Quando você compreende isso, deixa de seguir o protocolo cegamente e passa a entender o que está fazendo. Se uma célula está com a coloração muito pálida, por exemplo, sua primeira pergunta não será “o que deu errado?”, mas sim “a fixação estava adequada? O pH dos corantes está correto?”. Essa mudança mental é o seu primeiro grande salto.

Coloração Panótico Rápido
Vamos começar por um queridinho dos laboratórios de rotina: o Panótico Rápido. Se você é estudante, provavelmente vai ter muito contato com ele. Esta é uma coloração que une, em soluções prontas, os princípios dos corantes de Romanowsky. Sua grande vantagem é, como o nome diz, a rapidez e a praticidade. Ideal para esfregaços sanguíneos de rotina, onde a produtividade é essencial, porém, deixa a desejar no quesito de qualidade.
A dica de ouro aqui é o controle do tempo de coloração e, principalmente, da lavagem. Como o protocolo é rápido, cada segundo conta. Uma lavagem muito vigorosa pode descolorir o esfregaço, enquanto uma lavagem insuficiente deixará resíduos de corante, formando um fundo sujo e granular que atrapalha a leitura. Minha observação pessoal? Treine a técnica de lavagem: um jato fino e uniforme de água tamponada, inclinando a lâmina. A consistência nesse passo separa o iniciante do experiente. O Panótico Rápido oferece um ótimo equilíbrio entre detalhes nucleares e citoplasmáticos para a maioria dos casos.

Fundamentos em Hematologia – Hoffbrand & Moss – 7° Edição – Editora Artmed

Tratado de Hematologia – Vanderson Rocha – 2° edição – Editora Atheneu
May-Grunwald-Giemsa: O Padrão-Ouro Morfológico
Se queremos o máximo de detalhe, especialmente em hematologia patológica, entramos no território do May-Grunwald-Giemsa (MGG). Esta não é uma, mas duas colorações combinadas. Primeiro, o May-Grunwald age fixando e iniciando a coloração. Depois, o Giemsa aprimora os detalhes, especialmente dos grânulos celulares.
O May-Grunwald-Giemsa é ótimo para diferenciar grânulos específicos de neutrófilos, eosinófilos e basófilos, e é insubstituível para o estudo da medula óssea (mielograma). O segredo aqui é o pH do buffer fosfato usado para diluir o Giemsa. Um pH muito ácido (abaixo de 6.5) deixará as cores muito avermelhadas; um pH muito alcalino (acima de 7.2) deixará tudo azulado. O ponto ideal, em torno de 6.8-7.0, proporciona o contraste perfeito. Para o biomédico, dominar o May-Grunwald-Giemsa é como um pintor dominar sua paleta de cores: é a técnica que revela as patologias mais sutis.

Wright e suas Variações: A Base Clássica
Outro nome que você encontrará em todos os livros é a coloração de Wright. Ela é um dos corantes de Romanowsky mais antigos e diretos, frequentemente usada em conjunto com o Wright-Giemsa para obter um espectro mais rico. O corante de Wright já contém os componentes ácidos e básicos em um só pó, dissolvido em metanol.
A preparação da solução e seu envelhecimento (“maturação”) são críticos. Uma solução muito nova pode não colorir bem os grânulos; uma muito velha pode precipitar sobre a lâmina. Uma dica prática: observe a cor do corante no frasco. Ele deve ter um tom metálico característico. Se estiver opaco ou com precipitado visível, está na hora de filtrar ou preparar uma nova.

Integrando a Coloração com a Análise Morfológica
De que adianta uma coloração perfeita se você não souber o que está vendo? A coloração é o meio, não o fim. Após dominar o Panótico Rápido ou o May-Grunwald-Giemsa, seu treino deve migrar para a sistemática de leitura. Use sempre o aumento de 100x (imersão em óleo) após uma varredura em 40x. Comece pelas extremidades do esfregaço, onde as células estão mais distribuídas. Avalie as séries eritroide, granulocítica e plaquetária de forma separada e depois integrada.
Lembre-se: a morfologia conta uma história. Um linfócito com nucléolo proeminente após uma coloração cuidadosa de Wright-Giemsa pode ser um sinal crucial. Um neutrófilo com grânulos tóxicos bem evidenciados pelo May-Grunwald-Giemsa fala de uma infecção grave.
Referências Bibliográficas:
- HOFFBRAND, A. V.; MOSS, H. Fundamentos em Hematologia de Hoffbrand. [s.l.] Artmed Editora, 2018.
- UNKNOWN. PRACTICA TINCION PANOPTICO RAPIDO 14/11/14. Disponível em: <https://hemaisabel.blogspot.com/2014/11/practica-tincion-panoptico-rapido.html>. Acesso em: 6 jan. 2026.
- MOKOBI, F. Giemsa Stain- Principle, Procedure, Results, Interpretation | Staining. Disponível em: <https://microbenotes.com/giemsa-stain-principle-procedure-results-interpretation/>.
- BIOLOGYNOTESONLINE. Hematoxylin and Eosin (H&E) Staining – Principle, Procedure, Result, Uses – Biology Notes Online. Disponível em: <https://biologynotesonline.com/hematoxylin-and-eosin-he-staining-principle-procedure-result-uses/>.
